quarta-feira, 10 de abril de 2019

O meu partido é um coração partido.

Acho que Cazuza estava absolutamente desiludido quando escreveu isso. Em todos os sentidos. Desiludido quanto à desalienação do povo. Disiludido quanto às práticas da utopia. Disiludido quanto à ilusão de seu coração que se partiu na tentativa de não se partir. 
O poeta, caso estvesse hoje entre nós, partiria-se em mil, retrato de uma sociedade conturbada, alvo do sistema vigente. Cazuza morreu tentando entender porque temos tanta necessidade de dividir quando tentamos somar. 

Eu sou o retrato latente de uma decepção tardia
advinda de uma maturidade atrasada 
respaldada por uma consciência roubada. 

E sim, estou hoje, mais do que nunca, sentindo-me cortada, mas sem marcas, assim como as minhas retinas não conseguem me mostrar diariamente a ilusão a que somos submetidos quando acreditamos radicalmente em algo. A crença é desnecessária para o movimento. Além de ser mistificadora, a crença é a arma dos covardes. Posso não ver as marcas que provocam imensa dor em mim, mas ainda sou capaz de me guiar, livre de doutrinas, dogmatismos, impressões, e todas essas ações criadoras da religião dos ateus. Nem tive tempo de acreditar num deus pra desacreditar e não são livros que me guiam, nem pessoas revestidas pelos seus cientificismos categóricos, nem toda essa fuga do corpo para entender a mente. Sou guiada pela decepção. Ela sim, não me cega, muito pelo contrário, tem me mostrado os perigos das pedras e acima de tudo, o perigo dos lugares em que, inicialmente, você se mete sem enxergar as tais pedras. O meu erro é o que mais diz sobre mim. Talvez, sendo mais radical, é o único que tenha algo pra dizer sobre nós todos, não com a ideia utópica de que é com o erro que se aprende, mas com a prática como reveladora de todas as nossas crises.

texto escrito em 29/12/2011