quarta-feira, 10 de abril de 2019

O meu partido é um coração partido.

Acho que Cazuza estava absolutamente desiludido quando escreveu isso. Em todos os sentidos. Desiludido quanto à desalienação do povo. Disiludido quanto às práticas da utopia. Disiludido quanto à ilusão de seu coração que se partiu na tentativa de não se partir. 
O poeta, caso estvesse hoje entre nós, partiria-se em mil, retrato de uma sociedade conturbada, alvo do sistema vigente. Cazuza morreu tentando entender porque temos tanta necessidade de dividir quando tentamos somar. 

Eu sou o retrato latente de uma decepção tardia
advinda de uma maturidade atrasada 
respaldada por uma consciência roubada. 

E sim, estou hoje, mais do que nunca, sentindo-me cortada, mas sem marcas, assim como as minhas retinas não conseguem me mostrar diariamente a ilusão a que somos submetidos quando acreditamos radicalmente em algo. A crença é desnecessária para o movimento. Além de ser mistificadora, a crença é a arma dos covardes. Posso não ver as marcas que provocam imensa dor em mim, mas ainda sou capaz de me guiar, livre de doutrinas, dogmatismos, impressões, e todas essas ações criadoras da religião dos ateus. Nem tive tempo de acreditar num deus pra desacreditar e não são livros que me guiam, nem pessoas revestidas pelos seus cientificismos categóricos, nem toda essa fuga do corpo para entender a mente. Sou guiada pela decepção. Ela sim, não me cega, muito pelo contrário, tem me mostrado os perigos das pedras e acima de tudo, o perigo dos lugares em que, inicialmente, você se mete sem enxergar as tais pedras. O meu erro é o que mais diz sobre mim. Talvez, sendo mais radical, é o único que tenha algo pra dizer sobre nós todos, não com a ideia utópica de que é com o erro que se aprende, mas com a prática como reveladora de todas as nossas crises.

texto escrito em 29/12/2011 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Da vida

Aprendi com a minha filha
a parar
olhar para o chão
enxergar as coisas pequenas
as miudezas da vida

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

tem sempre o outro além dos teus olhos

domingo, 16 de julho de 2017

Ah, o dia

Não adia o dia
busca
corre
vive
sintassumpção
sai

o som da máquina
provoca
o não conhecimento
do profundo

das orquídeas que ele caçou
e disfarçou
em tom
de som

como escutar teu coração?

a materialidade da espiritualidade
disse ela

o canto das sereias
que choravam o seu despertar

fio desencapado

quem cuida da vida alheia
da sua não pode cuidar

teu samba reprimido
que comeu
e depois cuspiu disforme

chorei a tua volta
nessa manhã de um dia que não adio

vou sair a dançar tuas peripécias
a arte não pode parar



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Ser pó (Parte II)

Sou feito pó,
quando me tocam
Me espalho no ar

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Autocuidado

Uma sociedade sob o regime do capital faz com que você dependa exclusivamente do(s) seu(s) amor(es), o que denigre, em essência, o que o amor é.

O autocuidado é cuidar de si e cuidar de si é cuidar do outro. Uma definição (relativamente estável) de como pode se constituir a ética nas relações.

Quando você sente dor ou ciúmes no amor, isso não significa que você ame mais. Significa que você não está cuidando de si, da sua segurança emocional, do culto a sua própria solidão e construção do seu ser.

Nada pode ser tão forte que te fira e te cause angústia numa relação a dois, a três... O diálogo deve ser o rio por onde escorrem as palavras sinceras. A verdade nunca deve ser motivo para medo e insegurança.

Cuide de si.
Te amo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A instrução dos encontros

"O que faltou a Cláudia naquele instante parado no tempo foi o que sempre lhe faltaria: esse elementar instinto de defesa que disfarçamos sob o nome de razão. Há seres assim, irremediavelmente unos, incapazes de isolar partes dentro do seu próprio corpo e de as estruturar como castelos autônomos e armados."

Inês Pedrosa