domingo, 16 de julho de 2017

Ah, o dia

Não adia o dia
busca
corre
vive
sintassumpção
sai

o som da máquina
provoca
o não conhecimento
do profundo

das orquídeas que ele caçou
e disfarçou
em tom
de som

como escutar teu coração?

a materialidade da espiritualidade
disse ela

o canto das sereias
que choravam o seu despertar

fio desencapado

quem cuida da vida alheia
da sua não pode cuidar

teu samba reprimido
que comeu
e depois cuspiu disforme

chorei a tua volta
nessa manhã de um dia que não adio

vou sair a dançar tuas peripécias
a arte não pode parar



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Ser pó (Parte II)

Sou feito pó,
quando me tocam
Me espalho no ar

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Autocuidado

Uma sociedade sob o regime do capital faz com que você dependa exclusivamente do(s) seu(s) amor(es), o que denigre, em essência, o que o amor é.

O autocuidado é cuidar de si e cuidar de si é cuidar do outro. Uma definição (relativamente estável) de como pode se constituir a ética nas relações.

Quando você sente dor ou ciúmes no amor, isso não significa que você ame mais. Significa que você não está cuidando de si, da sua segurança emocional, do culto a sua própria solidão e construção do seu ser.

Nada pode ser tão forte que te fira e te cause angústia numa relação a dois, a três... O diálogo deve ser o rio por onde escorrem as palavras sinceras. A verdade nunca deve ser motivo para medo e insegurança.

Cuide de si.
Te amo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A instrução dos encontros

"O que faltou a Cláudia naquele instante parado no tempo foi o que sempre lhe faltaria: esse elementar instinto de defesa que disfarçamos sob o nome de razão. Há seres assim, irremediavelmente unos, incapazes de isolar partes dentro do seu próprio corpo e de as estruturar como castelos autônomos e armados."

Inês Pedrosa

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Transar ao som de Lauryn Hill

Apenas
num dia
de frio, suor.
num dia de chuva,
sal e suor
despretensiosamente,
numa quinta-feira
subir lentamente no corpo que me tolhe
um sobe e desce
sem  mesmo fim
sem nada que não seja
a respeito desses nós
atados
severamente livres e leves
na partida cotidiana,
aprendemos a deixar ir
sorrindo,
pelos nãos recebidos
pela conversa de canto
num vai e vem sem
volta
sonoros
porque de silêncio
já basta o tempo da recusa
agora é ida,
prepara!
somos a sós
pedaço de severa
sorte
num toque
uma pequena rota
de gozo suave
esvai-se em tempo,
morte.
e vai
só aquilo que for puro
o gosto sereno
do teu gozo gritado
junto ao meu fogo
intento
acalanto
na tarde daquela rede
que de minha só tinha a sede
e de tua
o glorioso retorno
da intensa
regida
visceral
saudosa
vida.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Ser pó

Não tenho vergonha de ser quem me tornei.
Se cheguei até aqui, foi porque não me nego
Porque brinquei nas poças de lama daquela cidade do interior e me esfreguei no banho até limpar tudo que havia sujado
Quando pequena, ainda precisava apagar o que fazia logo depois de ter feito
E esse apagamento nada mais é do que as cicatrizes que carrego nos joelhos, quando fui árvore
Olhei para trás, fingi não ser mais aquela criança que devorava feijão às 11h da manhã - e repetia o prato.
Meu vô dizia: "Como ela gosta de saladas" e eu sorria em orgulho pela aprovação do homem da família.
Corri muito, na quadra da escola, dos meninos que me perseguiam, do medo do escuro, dos desejos profanos que tinha ainda criança
Corri de mim por uns bons anos
Que serviram para que eu compreendesse porque não esconder, porque não me esconder
Atravessei a estrada de ferro
Firme e robusta, construída pela minha mãe, com ajuda singela do pai
Mas não quis voltar
Voltei algumas vezes para ter a infinita certeza do que me tornara 
Perdi-me e perder-se dói
Virar o sentimentos do avesso pode ser uma travessura da mente
E que mente tive...
Sonhei com alguém menos complicada 
Que não visse na água transparente, pensamentos de chão
Depois aceitei, o chão, o cheiro, a terra e uma incrível ternura pela inutilidade da vida me preencheu
Passei a olhar de frente os medos, os meus e os alheios

(Aceitar é um exercício permanente e cotidiano)

Os medos dos outros são palpáveis
Enquanto os meus, figuram no espaço
Fico sempre a achar cortinas nos olhos que me encaram
Parece que tenho que desvendar as imposições
Não sinto orgulho de ser curiosa
Ainda que a curiosidade me mova
Tenho aprendido a cuidar da minha curiosidade para que ela deixe de ser coisa aflita
ou que seja menos

Amadurecer tem me feito ser dura
Ainda que complacente e de colo acolhedor
Preciso ser dura para me lembrar de não sofrer
Para exteriorizar

Quando saturno retornou a mim, exclamei pensativa: será mais uma crise? Ou reafirmação daquilo que sou porque cheguei até aqui?
Aprendi que estradas de pedra não são definitivas
Prefiro o cheiro do barro e do pó ao cimento

Tenho dificuldade em me prender ao concreto
Então eu voo
Mas de cigarras não entendo 
Os vagalumes me confundem
Hoje sou do escuro
Qualquer lampejo de certeza sobre a claridade torna a minha luta vã

Ainda tenho dúvidas sobre a crença nos astros

quinta-feira, 30 de junho de 2016

O que não há em mim


Aponte-me onde sou aquilo que não queres que te direi: não me queres como sou?